O CAPITÃO AMÉRICA E O PATRIOTISMO DA CLASSE MÉDIA NO BRASIL

O CAPITÃO AMÉRICA E O PATRIOTISMO DA CLASSE MÉDIA NO BRASIL

Um pouco sobre “Guerra Civil” da Marvel e a situação do Brasil nos dias atuais.

Edição Nº 1 do Capitão América

É importante recordar a análise do PSTU (link no final do texto), ao fazer um paralelo entre o filme e o Brasil de 2016. De acordo com os próprios diretores (Joe/Anthony Russo) do filme, o partido fez uma análise precisa sobre o trama. Além disso, houve a confirmação de uma possível “influência” da crise política no Brasil sobre o roteiro de Guerra Civil, fato que despertou maior interesse por parte deste mero professor que aqui escreve.

Este comentário não será sobre a polarização na sociedade ou uma possível crítica à “saída burguesa” feita pelo PSTU. Esta análise é sobre um sentimento, tão aclamado e exaltado, conhecido como “amor à pátria”. Um fervor explícito no Capitão América, Tony Stark, e também, na classe média brasileira.

De acordo com o pesquisador dos quadrinhos Michael Schumacher, “poucos personagens agarraram-se tanto ao fervor patriótico quanto o Capitão América, o super-herói de traje vermelho, branco e azul criado por Jack Kirby e Joe Simon.” Criado em 1941, o personagem passou a ser um símbolo midiático contra o nazismo, durante a segunda guerra mundial. Segundo o próprio Jack Kirby, “o Capitão América foi criado para uma época em que precisávamos de figuras nobres. Ainda não estávamos em guerra, mas todo mundo sabia que ela se aproximava. Foi por isso que nasceu o Capitão América; o país precisava de um superpatriota. O uniforme, foi cuidadosamente projetado para encaixar-se a um conceito de patriotismo.” Pode-se dizer, que o Capitão América é um exemplo concreto de nacionalismo no mundo dos quadrinhos.

A Marvel através de Stan Lee fez com que as minorias presentes na sociedade sempre fossem o centro de suas histórias. Se começarmos a citar aqui, a lista é enorme. Entre os mais conhecidos estão os X-men, Homem Aranha, Luke Cage e por aí vai.

Em “Guerra Civil” (recentemente adaptado para os cinemas), de Mark Millar, é possível perceber a relação da manipulação da imprensa diante da sociedade, os “formadores de opinião”, como a religião (na figura do padre). Frases de protesto pelas ruas contra os super-heróis são exibidas na história de Millar com uma clareza profunda. Há uma preocupação com vidros quebrados, demonstrando os interesses do Estado, representado pela S.H.I.E.L.D. nessa história, que defende os governantes ao invés da população.

“Guerra Civil” – Mark Millar e Steve McNiven

Enfim, e a Sociologia, onde entra nessa história?

Trazendo para o contexto atual no Brasil, é importante refletir “o que é o patriotismo para o brasileiro”, especialmente para as maiores camadas da sociedade brasileira, como a classe média.

O Senso Comum acredita que o sentimento de patriotismo no brasileiro é inflamado apenas de quatro em quatro anos. Nas eleições? Não! Na Copa do Mundo.

É muito fácil perceber que o nacionalismo em nossa classe média é extremamente raso e supérfluo. Basta a noção do velho “complexo de vira lata”, o qual faz da classe média invejar SEMPRE a “grama mais verde do vizinho”. Como assim?

Arte de Victor Moura. Em um momento de polarização da sociedade, em qual lado você está?

Esse sentimento na classe média desperta uma inveja e um complexo de inferioridade. Algo que contraria um verdadeiro sentimento nacionalista, como aquele que influenciou Jack Kirby na criação do Capitão América.

A classe média no Brasil tem vergonha de ser brasileira. “QUE ABURSDO!” dirão alguns após ler isso. Mas, caro amigo, basta juntar dois ou três fatos de rejeição cultural:

A Umbanda, por exemplo, religião puramente brasileira, com origem no Candomblé e no catolicismo: é extremamente marginalizada. A música genuína brasileira é considerada música para dormir, “chata”, “de pobre”, “Regina Casé”. Os discursos separatistas, como o sulista para o nordestino reforçam a negação à “pátria”.

Isso é patriotismo? Amor à pátria? Com ódio a suas origens e sua cultura?

Se saísse HOJE um super-herói brasileiro tão simbólico quanto o Capitão América, há a certeza que a classe média brasileira odiaria, rejeitaria, faria piada e descartaria.

O patriotismo da classe média brasileira é mais falso que o mandato do Eduardo Cunha. E isso é ruim? Na verdade é ótimo, afinal, o patriotismo é um sentimento extremamente perigoso, e, se tratando de um momento conturbado como agora, que a classe média brasileira continue fracassando com esse falso sentimento. Há uma preocupação pela tentativa de aprimorar, mesmo rejeitando a própria cultura brasileira.

Lembro aqui, “V de Vingança”, escrita pelo libertário Alan Moore, o qual alerta para o perigo do patriotismo inflamado por Margareth Tatcher. A “dama de ferro” deixou uma mensagem bem clara para o mundo:

O PATRIOTISMO CAMINHA DE MÃOS DADAS COM O FASCISMO.

Já dizia Tolstói, um dos maiores nomes da literatura universal, que o patriotismo é um “sentimento antinatural, insensato, prejudicial, causador de grande parte das catástrofes pelas quais sofre a humanidade”, por consequência, segundo ele, o patriotismo deveria ser “contido e eliminado”.

Chega-se ao fato: A classe média brasileira e o patriotismo é uma combinação bizarra! As camadas mais inferiores do Brasil, por exemplo, são muito mais felizes, amam verdadeiramente sua cultura mesmo com tantos motivos para chorar.

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