O que diz o Carnaval?

O que diz o Carnaval?

por Roberto DaMatta

Todo brasileiro nasce num Brasil que tem Carnaval. Sabemos que o Brasil é Brasil por causa do Carnaval. Dizer isso parece trivial, mas não é. Nem todo mundo conheceu o Brasil dos imperadores, dos escravos e das ditaduras. Quantos de vocês, leitores, andaram de bonde? Ou viveram numa São Paulo sem crimes e engarrafamentos colossais e num Rio de Janeiro com a Baía de Guanabara despoluída?

Se a sociedade pode ser comparada a um tea­tro, então existem coisas passageiras e dramas permanentes que nos dão a certeza de estar vivendo num mesmo lugar. Mudou o estilo de se vestir, de comer e de morar; as cidades ficaram enormes, chegamos à era dos computadores e dos telefones celulares; trocamos a moeda e o mundo globalizou-se. E o Carnaval continua.


Ele tem sido uma das poucas coisas permanentemente nacionais. A repetição festiva, como disse Thomas Mann, é a abolição da diferença entre o ser e o ter sido. Todo ano tem Carnaval – e todo ano é o Carnaval que, talvez mais do que qualquer outra instituição nacional, nos certifica da continuidade do Brasil. Apesar de todas as mudanças, inclusive as que ocorreram no próprio Carnaval. Imaginar um Brasil sem Carnaval seria como imaginar uma noite sem lua ou um arroz sem feijão. Existem planos para acabar com tudo no Brasil, menos para proibir o Carnaval.

Claro que existem Carnavais em outros lugares – senão em todos os lugares. Mas há um “Carnaval brasileiro”. Tem muita gente que jura que ele só existe no Brasil. Daí a necessidade de qualificá-lo – de saber o que ele diz do Brasil.

Outro dia me perguntaram sobre suas origens. Não teria o nosso Carnaval nascido na Índia, nos festivais nos quais as castas se misturam? Na Grécia de Dionísio ou na Roma de Saturno? Respondi observando se ele não teria também nascido na Idade Média, quando Deus brigava diariamente com o Diabo – esse patrão dos excessos, do luxo e da libertinagem, marcas do nosso festejo.

Se, entretanto, passarmos das origens para o significado, compreenderemos por que o Carnaval tem essa centralidade no Brasil. Uma importância inexistente em outros lugares, como Estados Unidos, Itália ou Alemanha, onde ele não é nacional, mas local. Os estudiosos das festas e dos rituais classificam essas ocasiões em que as rotinas são provisoriamente abandonadas em dois tipos. Existem as celebrações da ordem (chamadas de solenidades) e as da desordem (os bailes, as festas, as folias). Há encontros que salientam o sério e o sagrado, em que não se pode rir, como as procissões ligadas à Igreja, ou as paradas militares, ligadas ao governo; e as festas do riso e da desordem, sempre relacionadas ao “povo” e aos “pobres”. Nas primeiras, usamos uniformes; nas segundas, máscaras e fantasias. As primeiras são rezadas e faladas; nas outras, o modo de comunicação é a dança e o canto.

Não há dúvida de que, na ordem capitalista hoje dominante – este mundo baseado na economia e no equilíbrio das contas –, as festas que celebram o excesso, a nudez, o canto, a dança, a rua, o riso, o uso de máscaras, a bebida e a sensualidade (sem suas consequências) são mais raras. Daí o lugar especial do Carnaval brasileiro. Mas elas existem também em outras sociedades. Mais que isso, todas as festas combinam ordem com desordem, formalidade com informalidade.

Um bom exemplo é um casamento que começa na igreja, no templo ou no cartório, debaixo do olho e da voz de um celebrante oficial (um padre, pastor ou juiz). E, depois da formalidade, vêm os esperados “comes e bebes”. O sermão que ainda está em nossos ouvidos é substituído pela estrondosa música para dançar e juntar o que estava separado: as famílias e os convidados dos nubentes e, simbolicamente, o noivo e a noiva que, depois da cerimônia, estão livres para se unir amorosamente.

Carnavais e carnavalizações servem para legitimar uniões ou entrelaçamentos entre os diferentes por meio do canto, da música e da dança e, acima de tudo, do riso que dissolve barreiras; ao passo que as festividades da ordem reforçam a autoridade e as diferenças. Nos Carnavais, há uma licença para o abuso – para o que ocorre abaixo da cintura –, que acaba ficando normal e até mesmo obrigatório. Nas solenidades, salientam-se as mãos e o que fica no hemisfério superior do corpo. Mas, notem bem, toda desordem é seguida de ordem, e toda ordem de desordem. Por isso, o Carnaval termina nas cinzas da Quarta-Feira, que marcam o início da Quaresma – um tempo que anuncia o suplício de Cristo; e os casamentos e as formaturas (e muitos funerais) terminam em orgias e grandes bebedeiras. Antes da disciplina rígida que manda “abandonar a carne” (carne levare), a orgia.

Como seres sociais, fabricantes involuntários e colaboradores de um teatro para o qual não pedimos para entrar, precisamos tanto do controle que norteia o mundo do trabalho quanto do descontrole que faz a festa – e, num sentido inconfundível, é a própria festa.

“Já se observou muitas vezes que uma comunidade se retrata tão bem por meio de seus divertimentos como por meio de suas maneiras de pensar e agir sério”, escreveu o comerciante inglês John Luccock em seu livro Notas sobre o Rio de Janeiro, publicado em 1829. Ele falava do entrudo – uma forma que antecedeu o Carnaval – e arrematava: “No entrudo ficamos todos bobos!”. A festa desloca as razões e a lógica do bom-senso vigente no mundo diário, abandonando, reforçando ou invertendo rotinas. Um sujeito vai a um restaurante e gasta numa refeição todo o dinheiro do mês. No Carnaval, um conhecido se fantasia de palhaço, outro de mulher, outro passa horas tocando na bateria de sua escola. Estão “brincando” ou “trabalhando”? A mãe que passa horas fazendo o bolo do aniversário do filho está na mesma situação. Como disse o viajante inglês, os divertimentos nos levam às estruturas mais profundas da vida social. Celebrar é um modo de fazer, mas fazer sendo alguma coisa. Ora, fazer de um jeito ou de outro é o que permite saber quem somos e quem são os estrangeiros. Sabemos que somos brasileiros porque, numa época do ano, “brincamos” e “pulamos” Carnaval!

O que seria de nossas vidas sem esses significados extrarracionais de viver em sociedade? Essa é a pergunta que levantei em meu livro Carnavais, malandros e heróis, publicado em 1979. Nele, eu falava precisamente desse imenso custo para celebrar algo tão vago quanto a alegria e a sensualidade. O contraste com outros festejos nacionais – uma festa em honra de Nossa Senhora de Nazareth ou a Independência do Brasil – é enorme. Num caso, há motivo e lógica; no outro, do Carnaval, há apenas a celebração em estado puro. Ou quase puro, porque o Carnaval promove uma abertura para as camadas populares, para o povo pobre que, nos desfiles de antigamente, era vaiado quando desfilava.

Se o Carnaval tem algum sentido, ele está numa estética da igualdade que apresenta o corpo pobre, mas harmonioso e belo; e a massa, que deveria se revoltar, envolta em fantasias e contando, na forma de um samba, histórias impossíveis. Caso você não concorde comigo, leitor, não fique zangado nem ofendido. O Carnaval é riso, engano e mentira. Por isso, ele está tão dentro do Brasil.

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